terça-feira, 6 de março de 2007

"Modernismo"

“Por natureza e por vocação, o homem é um ser religioso, capaz de entrar em comunhão com Deus.”
in Compêndio da Igreja Católica


Assistimos à decadência moral da civilização humana nos povos do Ocidente. À distância de um clique no botão do telecomando da televisão, chegam até nossa casa notícias de governos desgovernados, onde a corrupção e falta de orientação para o povo que o elegeu emanam das suas actividades estatais.

Em prol de um duvidoso “modernismo”, deparamo-nos com iniciativas escabrosas de atentados contra a vida humana (que é a de todos nós), e pela qual o Estado deve zelar. Então, onde estão estes governos em matéria de vida? Infelizmente, abonam a matéria de morte.

O suposto dever desta alta patente civil é o de educar o seu povo; porém, quem pode dar aquilo que não tem?
Para que lado tendem os nossos representantes no que toca: à geração de seres humanos? Aborta-se; à união legítima entre pessoas? Livre, independentemente dos sexos, seja qual for a natureza e compatibilidade intrínseca à espécie humana; à educação do correcto uso da sexualidade, de acordo com o estado e consciência? Educação sexual para as crianças; ao uso de drogas nefastas? Criam-se compartimentos próprios, para que os dependentes possam exercer livremente o atentado à sua vida e à vida daqueles que os rodeiam. E que medidas, em relação: a maternidades, espaços de acompanhamento ao nascimento de novas vidas humanas? Encerram-se; centros hospitalares, bens fundamentais à salvaguarda da saúde pública? Encerram-se, e cortam-se despesas aos que não seguem este caminho; às escolas, centros de formação e educação para a comunidade humana que suporta um país? Encerram-se, e cortam-se despesas às que não seguem este caminho.

Com o decorrer dos tempos, podemos observar como a balança das medidas sociais tende, a um ritmo frenético, para o lado da corrupção humana. Não lhe chamemos “modernismo”, ou corremos o grave risco de deturpar o sentido de uma palavra que se quer como significado de saudável adjutor à vida humana (que é a nossa).

Toda esta pseudo-evolução reflecte-se na forma de estar das – cada vez mais escassas – famílias, que são, na sua essência, a unidade celular que constitui um povo ou uma civilização (como a nossa). A aplicação do livre recurso às técnicas que constituem os mais sérios atentados ao valor da família desconstroem-na e, como um tumor, alastra-se por todo o corpo da nossa sociedade, corrompendo-a.

Surge então uma nova geração, que cresce ao sabor das vagas “modernistas”. Quão frequente não é, nos dias que correm, defrontarmo-nos com pré-adultos educados por computadores e jogos de valor duvidável? Criados num ambiente onde quem não segue a última moda é automaticamente excluído; e os amigos se medem pelo que possuem, e não pelo que são. Os pais, negligentes, corroboram com esta educação, permitindo-os crescer em parcas condições de afecto humano, “compensado” por um incentivo ao materialismo. O divórcio torna-se prática corrente e, com ele, a educação destes novos seres humanos torna-se manca face à nossa condição natural.

Estes homens estão a chegar, e prontos para ocupar cargos de responsabilidade em entidades empregadoras e de governação.

Ninguém pode dar aquilo que não tem, e pouco se pode esperar de quem pouco recebeu...

A tendência natural destes espíritos, desgastados pela fricção em seco das circunstâncias da vida, é a de se circundarem por aqueles que, em pequena medida, lhes compensam as carências do afecto que não receberam na sua fase de formação. E o fruto que é comum colher na plantação de um homem saudável, esperam colhê-lo nas suas próprias plantações. Correm então atrás do elogio e do afecto fácil; das palavras bajuladoras e de incentivo, que alimentam o monstro do orgulho; e evitam as vozes da negação, porque muitas colocam a nu estas feridas de formação, encobertas pela espessa e negra camada dos vícios ganhos entretanto.

O mal atrai o mal e abomina o bem.

Nesta balança que se desequilibra como que atraída por um inexplicável magnetismo, pendem duas forças: uma que cega, e recruta nas suas fileiras os viciados pelo ópio enganador dos ditadores do “modernismo”; e a outra que desmascara, que luta pela natureza humana (que é a nossa), e harmoniza-se com esta condição. Para que o nefasto prato, embalado pelos braços do prazer instantâneo, caia definitivamente no fundo, é urgente eliminar os que forçam o sentido contrário. E são impressionantes as estratégias adoptadas para atingir este fim!

A uma árvore que não se consegue cortar, divide-se, atraindo os seus galhos para a promessa de um sol e uma água que os faça crescer mais depressa que os outros; mas cedo os faz murchar lentamente, sem que disso se apercebam. À custa de envenenar novos rebentos, estas trôpegas pernadas vão ganhando forma, volume e força, corrompendo toda a árvore. E enquanto a árvore se debilita, ataca-se a raíz até que caia. A este machado e a esta enxada, chamamos laicismo.

A necessidade de religião é tão legítima como a alimentação. Faz parte da nossa condição humana. A religião dota um povo de comportamentos similares, unindo-o a uma mesma causa e a um mesmo culto. Reflecte-se na sua vida de forma total, e penetra até ao fundo do seu comportamento, criando uma massa homogénea – e simultaneamente heterogénea –, de vontades e aptidões. Castrar esta necessidade humana é apelar à divisão: um exército unido por um mesmo chefe é sempre mais forte do que um exército sem chefe algum, porque num exército sem chefe, quem manda é a Discórdia.

O Chefe não permite maus comportamentos nas suas fileiras. E aqueles que não o suportam, por verem as suas atitudes colocadas em causa, vão conspirando; e vão conspirando de forma cada vez mais astuta. Tão astuta, que chega ao ponto de fazer levantar a pergunta: “Será que temos Chefe?”

E esta questão vai ganhando adeptos, chegando ao ponto de não reconhecer a autoridade daquele que manda; e assim se abandonam os pelotões. O exército divide-se e vai enfraquecendo. Acusando a necessidade, surgem novos chefes, pequenos em estatura, e de ideais envenenados de suspeita, corrupção e ambição. Estes pequenos chefes são ávidos de obediência, respeito e riquezas; desejam o mesmo que o Chefe tem, mas não fazem o mesmo que ele faz.

O Chefe une o exército, torna-o forte, e serve-o com as suas posses e inigualável capacidade de liderança; mas os soldados vão-no abandonando, preferindo ser comandados por outros mais “liberais”, que apenas procuram ser servidos. Revoltam-se contra o Chefe e contra aqueles que o seguem, porque sentem as suas perversas acções ameaçadas por esta presença.

O laicismo é isto: a recusa da presença deste Chefe.

Na prática, manifesta-se como uma via-rápida para a degradação humana.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Referendo sobre o aborto: Uma nova abordagem (II)

Uma questão de lógica comum

É comum o ensino de lógica básica na disciplina de matemática (ou até mesmo de filosofia) ao mais principiante dos estudantes:

V e V => V
V e F => F
F e F => F

Senso comum.

A pergunta que nos é proposta no referendo, que é constitucional, apresenta-se-nos da seguinte maneira:


"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada por opção da mulher, até às 10 semanas, num estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

Dissecando:


"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez" -> Sim.
"se realizada por opção da mulher" -> Não. Porquê apenas da mulher, se para fazer um filho são precisos dois?
"até às 10 semanas" -> Não. E às 10 semanas e 1 dia passa a ser penalizada?
"num estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" -> Não. Preferimos impostos aplicados em instituições de apoio à mulher grávida.


O que resulta em:

V e F e F e F => F

No entanto, até poderia ser:

V e F e V e V => F


Como se pode constatar, basta existir uma condição com a qual não concordamos, como por exemplo "por opção da mulher", para que o resultado dê automaticamente Falso (Não).

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Referendo sobre o aborto: Uma nova abordagem

Introdução

No dia 11 de Fevereiro vamos votar num referendo, e nem todos nos sentimos completamente esclarecidos. Surgem imensos textos, e muitos deles verdadeiramente bons. Porém, nesta esgrima constante de argumentos, a informação vai-se dispersando, o que pode levar a uma certa confusão.

Por esse motivo, propomos aqui uma abordagem diferente para esclarecimento da pergunta que será realizada em referendo, esquematizando graficamente alguns dos principais argumentos defendidos quer de uma parte, quer de outra.

Esta abordagem é escolhida porque, apresentando os factos recorrendo a objectos gráficos, assim como a relação lógica entre si, esclarece-se mais facilmente o assunto tratado àquele que os lê
e interpreta.

Tanto os apoiantes do "sim", como os apoiantes d
o "não", desejam avidamente que os portugueses votem com consciência da consequência do seu voto.

Esperamos sinceramente que a informação que aqui lhe disponibilizamos possa ser de alguma forma útil, e contribua para o seu conhecimento acerca do que vai realmente ser votado no dia 11 de Fevereiro.

O referendo no actual contexto do país

Recorrendo ao gráfico aqui exposto, torna-se mais prático perceber quais as implicações deste referendo.

O aborto, até à data, requer que sejam preenchidos determinados requisitos para que possa ser efectuado. O que é proposto aos portugueses é, como se pode ver, que o aborto legal deixe de estar exclusivamente dependente do risco de saúde que constitui a gravidez para a mulher, de uma má formação congénita ou de estarmos perante um caso de violação. Surge então uma nova opção, limitada pelo espaço temporal de 10 semanas, onde os motivos que justificam um aborto podem ser arbitrários.

Como se pode constatar, o aborto clandestino corresponde apenas a uma entre as várias opções que a mulher tem ao seu dispor para dar como destino ao seu bébé.

Nos rectângulos com a moldura a verde encontramos as instituições e associações que apoiam as mulheres grávidas e os recém-nascidos; nos rectângulos com a moldura a cor-de-laranja encontramos os serviços que o Estado disponibiliza às mulheres grávidas.

Mais conclusões podem ser tiradas, mas deixamo-las ao critério do leitor.

Trata-se mesmo de uma despenalização?

Não. Na verdade não se trata verdadeiramente d
e uma despenalização.

«Há alguns anos, foi descriminalizado (e despenalizado) o consumo de droga. Mas isso não tornou o consumo de droga uma conduta lícita. O consumo de droga passou a ser considerado
uma contra-ordenação, uma infracção menos grave do que um crime, sancionada com coima (e não com pena). O consumo de droga não passou a ser livre, a venda de droga não passou a ser livre, nem o Governo passou a fornecer droga a quem o queira. Isto porque o consumo de droga não foi legalizado ou liberalizado. Mas tal sucederá com o aborto até às dez semanas, se vencer o "sim". O Estado passará a garantir a sua prática livre, e até em instituições públicas ou com o recurso a financiamento público
excerto de um texto de Pedro Vaz Patto, membro da Comissão Nacional da Justiça e Paz

Nota: As ilustrações não se encontram à escala.

Outro facto que se pode constatar é que o aborto clandestino não desaparece obrigatoriamente com a introdução desta nova lei a referendo. Se uma gravidez dura, em média, 36 semanas, e a mulher, nas primeiras 10 semanas, não tomou qualquer decisão, durante as próximas 26 semanas, i.e., perto de 3/4 do período de gravidez, se abortar, estará igualmente sujeita às penalizações vigentes no Código Penal português, que passam pela pena de cadeia até 3 anos.

«Houve, no entanto, quem se preocupasse. No início de 2004, Freitas do Amaral propôs uma alteração penal que impedisse as mulheres de serem levadas a julgamento. Perante a indiferença geral e algumas críticas sarcásticas. Cavaco Silva, por sinal, foi dos poucos a apoiar essa proposta. Em Março de 2005, as deputadas independentes do PS, Maria do Rosário Carneiro e Teresa Vanda, apresentaram um projecto no mesmo sentido. O próprio PS se encarrregou de impedir que fosse agendado e, apesar do esforço de Jaime Gama, tanto o PSD como o CDS nada fizeram para levar a votos o projecto das deputadas.»
Semanário Sol, 7 de Outubro de 2006

Estamos preparados para receber uma lei destas?

Não. A nossa pirâmide etária prova um défice enorme de nascimentos em Portugal, o que irá, a médio prazo, baixar drasticamente a população activa do país, comprometendo a reforma dos que votam, neste momento, nesta lei.

Dados de 2001. Fonte Maria José Carrilho, Instituto Nacional de Estatística (http://www.ine.pt/censos2001/EmFoco/pdfs/censos2001mjc.pdf)

Perante tal situação, o Estado deve prover meios de incentivo à natalidade, de forma a compensar o profundo desequilibrio demográfico do país. Porém, as medidas do Estado vão desde o encerramento de maternidades, até abertura de clínicas de aborto.

Qual tem sido a actuação do Governo para corrigir o défice de nascimentos?

No mínimo estranha. Vejamos:
Como é de conhecimento público, o Estado tem encerrado imensas maternidades, chegando ao ponto de permitir que bébés portugueses vão nascer a Espanha.

Os centros de apoio a grávidas e as instituições que acolhem os recém-nascidos queixam-se continuamente da falta de apoio do Estado, que deve ser, antes de qualquer outra entidade, o principal interessado em manter estas instituições em boas condições de funcionamento.

Conclusão

Não nos parece, de forma alguma, que este seja o caminho certo para combater as dificuldades que atravessamos. O Governo deposita nas nossas mãos a aprovação de uma lei, que, pelos motivos já explanados e outros, prejudicarão mais o país do que realmente o auxiliarão.

Cumpramos então com o nosso dever cívico bem esclarecidos e informados!

Obrigado!